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Rock, Cinema, Música, Cultura Pop em opiniões inconvenientes formadas por anos e mais anos de intrigante falta de coisa melhor pra fazer e feroz resistência para sair da adolescência.

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Sons captados Terça-feira, Outubro 26, 2004


Aliás que Springsteen que nada, duro mesmo é ter como inimigo político o Richard Cheese. Para os que não foram apresentados, imagine um cantor de lounge music, daqueles que cantam standards acompanhados de um jazz trio, usando ternos, no estilo de Frank Sinatra, Tony Bennet e outros menos cotados. Todo bar descolado e elegante precisa de um. Mais ou menos os cantores de MPB dos Estados Unidos, sem o banquinho e os desafinos.

O nosso amigo Richard seria só mais um desses. Se não fosse um detalhe no seu repertório: Ao invés de Night and Day ou Strangers in the Night, que tal dançar coladinho ao som de Hush Pipe, Chop Suey ou Come out and play (keep'm separated) em versões swing? Sim, o camarada só faz versões de hits roqueiros ou pop. O nome da banda que o acompanha é apropriadamente Lounge against the Machine. O mais incrível é que a coisa dá muito certo musicalmente, não fica só na piada. Não dá pra não ficar amarradão ouvindo-os esculhambar totalmente muitas músicas queridas, trocando tons, ritmos e andamentos com a maior maestria.

E o Cheese ainda vai anarquizando as letras, cantando em francês, dando falsetes malucos. Na versão de Beat It do Freak Jackson, por exemplo, ele testa os limites do politicamente correto, ao interromper a baladinha (O riff do Eddie Van Halen executado ao piano) com um refrão alegre cantado por um coral de criancinhas.

Perguntado sobre de onde veio essa idéia, ele responde que a inspiração veio de bandas como a Brian Setzer Orchestra, onde o Brian fazia versões big band dos seus próprios sucessos da época do Stray Cats, ou Dread Zeppelin, que fazem versões reggae de Led Zeppelin liderados por um cantor maluco que imita o Elvis Presley. Ele ainda cita o Bill Murray, que tinha um quadro sobre um crooner que fazia exatamente o mesmo lance no Saturday Night Live.

E a citação ao Bill Murray nos dá a outra pista sobre quem é Richard Cheese. Na verdade, trata-se também de um comediante profissional, o nome real do cara é Mark Jonathan Davis. Com boa voz, ele fazia jingles para rádio e locuções em geral. Ele fez um personagem num programa da KROQ, um cara de 55 anos que tentava convencer as pessoas da rádio, que só tocava Rock, que o Sinatra é que era o cara. Depois rolou uma vinheta para a NBC com a idéia de recriar as aberturas das sitcoms em ritmo de lounge, e a evolução natural da coisa acabou sendo o Richard Cheese. Ele acabou contratando uma banda de músicos profissionais (cognominados Buddy Gouda, Bobby Ricotta e Gordon Brie) e seu alter-ego se tornou mais conhecido que ele mesmo, com 3 álbums gravados, vários shows pelos Estados Unidos, incluindo noites em Las Vegas, capital dos cantores superstars para divertir velhinhos (Por exemplo, a Celine (ó)Dion faz temporada permanente por lá).

Se alguém não acha a idéia tão original, ele tem a resposta:

"Tanta gente diz que faz a mesma coisa no chuveiro, e até eu fazia isso também. Acho que isso já foi feito antes, e será feito novamente. Mas ninguém tem esse paletó maneiro de pele de tigre que eu tenho."

Não dá pra discutir com isso, né?

Então onde entram o Springsteen e política é que o nosso amigo também está contra o Bush, dando força ao movimento Rock the Vote. Ele promete em seu site que não vai mais tocar até que o Jorge Moita saia do gabinete (Nenhuma conotação homossexual aqui). E ainda promete jamais tocar nos estados que votam no Bush. Ele dá 3 motivos, a saber: O Bush nunca comprou um CD dele, nunca convidou pra tocar na Casa Branca, e nunca deixou-o fazer sexo com as suas filhas. Comédia à parte, neste manifesto ele explica o porquê, de modo bem contundente. Um trecho diz:

"Estou atacando o George W. Bush porque ele atacou a mim e a meus fãs, e mentiu para todos nós. Não havia armas de destruição em massa; O Iraque não tinha nada a ver com 9/11; a missão não foi cumprida. Nosso mundo NÃO está mais seguro...É impossível pra mim continuar cantando e divertindo os outros quando tanto estrago está sendo feito à nossa liberdade, nossa nação e nosso planeta."

Ele ainda recomenda que as pessoas assistam ao Fahrenheit 9/11 do Michael Moore, e que escrevam pra ele para debater. Eu escrevi, nada engajado, mas só dar um alô, e ele mandou saudações aos fãs do Brasil (que só o conhecem por mp3 e nunca compraram um álbum dele, que não é vendido aqui, mas eu não mencionei esta parte), e aquele papo de sempre sobre uma possível turnê latino-americana em 2005. Então é isso, um cara com uma obra que vale a pena conhecer, uma postura política forte e que ainda responde os e-mails. Quando eu for artista quero ser que nem o Richard Cheese. Com o paletó e tudo.




Sons captados Domingo, Outubro 24, 2004


Está uma onda de descoberta de filmes de terror japoneses. E isto me levou diretamente ao Supla. Por exemplo, The Grudge acaba de estreiar nos EUA. Seguindo a linha do Ringu/The Ring, é o remake do filme japonês Ju-On: The Grudge, que por sua vez é o remake de Ju-On, filme feito para a TV japonesa, que aliás teve uma continuação. Parece complicado, mas é mais fácil entender quando nota-se que o diretor e escritor de todas as versões é o mesmo. Não é legal? O cara vai lá, tem uma idéia de história, que aliás é de casa mal-assombrada, então nem é lá aquela idéia tão original, e vai fazendo quantos filmes puder sobre a mesma coisa, enquanto alguém for dando grana pra ele. Méritos por tal Takashi Shimizu, porque conseguiu dirigir no Japão com grana de Hollywood, e dizem que os filmes são realmente assustadores, embora meio sem... história. Pois é.

Vi os trailers dos filmes japonês e americano, e parecem bacanas. Ainda mais porque o americano é com a querida Buffy Sarah Michelle Gellar. Depois de abraçar o cinema, e aquele bobalhão do Fred Prinze Jr, ela tenta espantar sua imagem de mocinha de série de terror televisiva com o papel de... Mocinha de filme baseado em série de terror televisiva. Acho que ninguém nunca teria pensado nisso, então deve ser uma estratégia brilhante.

Pois então, falando em filmes de terror de outras paragens eu já curti muito as bizarrices do Dario Argento ou os clássicos ingleses da Hammer, mas nunca tinha visto um filme de terror francês. E aprendi no New York Times que saiu agora o DVD de um mega-clássico chamado Les Yeux sans Visage, de Georges Franjou. Foi imediata a ligação com o corinho feminino no refrão de Eyes Without a Face, que aliás é o título do filme em inglês. É aquela baladinha viajante do Billy Idol, que vi ao vivo no Rock in Rio 2, e como vocês todos podem ver ao lado, é o herói e modelo de vida do Supla. Como queríamos demonstrar.

Porque eu posto pouco por falta de tempo, mas jamais por falta de capacidade inventar um assunto cretino do nada.




Sons captados Segunda-feira, Outubro 18, 2004


Últimas notícias do meu loft com paredes, porque continuo sem nenhum móvel, a não ser uma cama perdida no meio do apê. Ainda tenho que me refazer dos gastos com a câmera digital, o roteador wireless (que me permite usar a web no banheiro, o que é realmente uma daquelas coisas que ninguém sabe que é imprescindível até fazer pela primeira vez) e os monitores pro meu home studio. Neste mês, fora prestações dos móveis de banheiro e da bancada do estúdio, vão rolar a mesa de som e o amp para a guitarra. Geladeira pra quê, eu quero é Rock.

Só que isso já está causando certa celeuma. É de se esperar que um músico amador que não tem TV nem aparelho de som toque um bocado de violão pra passar o tempo. Até porque preciso ensaiar as paradas que toco no barzinho. Eis que um belo dia escuto uma música ribombante proveniente do apartamento vizinho. Era um álbum do Pixies, que foi apreciado inteirinho no último volume, com as minhas paredes tremendo. Eu já sabia que era um cara vindo de outra cidade, transferido pela empresa, morando sozinho. Rapaz de bom gosto, pensei. Algum dia seria legal ir lá conhecer, sei lá se ele estava tocando aquilo pra fazer amigos. Segunda passada, eis que estava testando os monitores, são da Roland, com amps de 20W acoplados, ao som de Queens of the Stone Age ao vivo. Senti as paredes trepidando, abaixei, e lá estavam o Frank Black vomitando Debaser da sala ao lado. Era realmente um sinal de aproximação amistosa. Eu ia tocar na BizarroKids, na Casa da Matriz, estava preparando o capacete da minha fantasia de Speed Racer, e pensei em convidar o cara pra ir. Afinal lá ele encontraria muitos amiguinhos indies que compartilhavam seu amor pelos rechonchudos Pixies. Começou a rolar a Hey a todo volume, não quis interromper um momento tão bonito, esperei terminar, fui lá e toquei a campainha. Nada. Vai ver o cara ligava o som pra ir tomar um banho. Ou se drogar loucamente. Voltei ao trabalho, curtindo o som dele.

Lá pelas tantas, barulho de porta abrindo e fechando no hall do elevador, e o som termina. Estranho. Fui lá tocar a campainha, cheio de simpatia por aquele roqueiro amistoso. Me atende um japonês espinhento e gordo, com uma cara das mais mal-humoradas que eu já vi na vida. Contive minha expressão de desagrado e mandei:
- "Oi, sou o seu vizinho aqui do lado, você gosta de Rock'n'Roll, né?" - pra ter que ouvir "NÃO." - com a cara mais amarrada ainda.
- "Não? Ué, você estava ouvindo Pixies alto pra caramba..." Aí percebi a situação mais claramente. O cara estava todo suado, com roupa de quem faz jogging. Ele ligou o som e saiu de casa pra correr. Duas hipóteses me ocorreram: Ele poderia ficar correndo em volta do quarteirão, e como não tinha walkman botava o som do apartamento a todo volume pra poder curtir sua banda favorita enquanto faz exercício, e ao mesmo tempo espalhar a boa música pelo mundo, tornando as pessoas mais felizes. Ou então o mais provável:
- "Hã, por acaso eu estava te incomodando com o som?"
E o cara, olhando pros pés: -"É."
Eu, tentando entender a lógica da coisa: "E aí você botou um som alto, é isso?"
- "...É."
Aí me assaltou a parte mais grave daquela situação surreal: - "Peraí, você não gosta de Pixies mesmo??"
- "Não."
O resto do diálogo seguiu nessa linha, eu sorridente interrogando o cara a respeito do que exatamente ele queria com aquilo e ele respondendo monossílabos. Expliquei que era músico, e que ia tentar maneirar um pouco, mas infelizmente não ia parar de tocar, apertei a mão dele e voltei aos meus afazeres. Então o vizinho bota um álbum inteiro dos Pixies num volume de demolir paredes só pra me irritar? Sinto que isto vai ser o início de uma longa amizade.

O resultado do meu árduo trabalho foi esse aqui, com vocês DJ Speed:



A setlist está no blog da DJ Moranguinho, que me deu a honra de tocar junto na pista 2 da Maldita.




Sons captados Sexta-feira, Outubro 08, 2004


Ok, ok, vamos botar ordem no entrenimento nosso de cada dia:

Tá rolando no Espaço Unibanco o "Última chance" do Festival. A trilogia de faroestes do Sergio Leone com o Clint Eastwood vai passar, assim como o documentário dos Ramones, que esgotou e não consegui assistir. Ingressos só no dia ou pela internet. Vou tentar pelo menos o dos Ramones, mas já adianto que 3 homens em conflito é histórico. Só não vai ver quem for mané.

Libertines e Primal Scream juntos, e Kraftwerk em outro dia passarão pelo Rio, sim. Lá no cais do Porto. 80 pilas... Tá dureza. Mas melhor que o Brian Wilson, a 150, mais passagem para Sampa. Meu Deus, e eu que tenho que comprar geladeira e fogão. TV acho que só vou ter em 2005. Rock tem prioridade.

BizarroFest com esta besta que vos fala mais uma vez pilotando as carrapetas (que coisa brega isso) com um lindo set do puro New Wave pra dançar até desmontar. Será na Casa da Matriz, nesta segunda, 11 de outubro, véspera de feriado, então não tem desculpa. Estaremos fantasiados de heróis ou vilões da infância, pagando mico na pista no segundo andar.

Mas antes rola mais um programa nerd totalmente imperdível. Estarei junto com o Fábio Lima, do blog Refresco de Tamarindo, desfilando crássicos (ou nem tanto) do Rock a duas vozes e violões na Choppers. A noite Rock-Blogueira será neste sábado, a casa fica na Álvaro Ramos 270, em Botafogo, perto do Rio Sul, 2 quadras da Rua da Passagem, o chopp é gelado, a pizza é boa, vejo-os lá.




Sons captados Segunda-feira, Outubro 04, 2004


Tanto tempo sem shows internacionais e agora me vem o Tim Festival botando Libertines no mesmo horário do Brian Wilson. E rumores dão conta da vinda de Mars Volta no mesmo dia de PJ Harvey e Primal Scream... E ainda teremos Pet Shop Boys na inacreditável madrugada de domingo pra segunda, impossibilitando a ida de quem mora, e trabalha, no Rio.

Como um pobre nerd que não tem TV e não assina jornal, peço ajuda aos diletos ouvintes: Alguém aí tá sabendo de shows desse pessoal no Rio, pelo amor de Deus?




Sons captados Sexta-feira, Outubro 01, 2004


Mais pílulas do Festival do Rio:
  • Parteiras da Amazônia - Mensageiras da Luz - Documentário da mostra competitiva, assisti com direito a cédula de votação e debate com o diretor. O filme mostra entrevistas com parteiras do Amapá, onde praticamente não há hospitais e médicos e as crianças nascem em casa com o auxílio destas mulheres que aprendem tudo na base da sabedoria popular. É interessante ficar sabendo por exemplo que não existe a possibilidade de cesariana, então a parteira sente a posição do bebê e usa técnicas pra tentar ajeitar. Rolam dois partos no filme, ambos nojentos como é de se esperar, mas fiquei meio besta e comovido. Deve ser a idade.

    O melhor foi no debate, quando pintou uma enfermeira na platéia acusando o diretor de ser irresponsável, as parteiras de não utilizarem técnicas "legítimas", a filmagem dos partos de perigosa para a saúde de mães e bebês, só faltou acusar os bebês de serem feios em excesso. O camarada respondeu com toda a tranquilidade, se fosse eu tinha retrucado algo como "Minha filha, você quer que te diga como fazer seus partos? Então beleza, não me diga como fazer meus filmes, que eu sou cineasta, e não médico, pombas. E, aproveitando o trocadilho, vá para o raio que a PARTA!". ...Sabem, existe um motivo para eu não ser um cara famoso. Quando já tinha terminado fui procurar a urna de votação, perguntei pro camarada na porta onde estava e ele botou as mãos na cabeça. Tinham levado embora sem meu precioso votinho, e eu tinha posto "excelente" lá, pra dar uma força. Fica pra próxima.


  • Uma mulher fiel - História do Oscar Wilde. Scarlett Johanssen no papel principal, mostrando que é, sim, o grande nome feminino do cinema atual. Não dava pra errar. Um filme bacana, mas com bom orçamento, não tem cara de festival. Deve estreiar por aqui, vale a olhada, nem que seja pelas tiradas excelentes do Oscar:
    -"Ela só está atrás do seu dinheiro!"
    -"E porque não? É a minha melhor qualidade!"
    E por aí vai. Cínico até o talo. Só achei a Helen Hunt um tanto quanto deslocada em filme de época. Ela não consegue ser intensa em nenhum momento, fica lá com aquela cara sonsa e jeito devagar e didático de falar. Não rolou.


  • Viver com Medo - Comédia canadense sobre um cara cheio de fobias que se vê cercado de acidentes bizarros onde tudo o que as pessoas temem acaba acontecendo. Sua irmã trabalha em uma empresa que fabrica uma pulseira que avisa sobre os perigos que cercam a pessoa, que subitamente vê as vendas dispararem com a onda de pânico que se espalha. O cara, convencido de que seus medos estão fazendo as pessoas sofrerem os acidentes, tenta se consertar. O filme é interessante, tecnicamente bem filmado, talvez um pouco desigual. Dot, a namorada do cara com fixação em moda e um jeito meio doido, é a grande atração. Um personagem que tinha tudo pra ser irritante e chato, mas que toda vez que aparece aumenta um bocado a graça da coisa. Ponto pra menina, que valeu o ingresso.

Beleza, agora vou ali tocar no barzinho. Já volto.



Propaganda eleitoral gratuita: Olá, multidões que estão aqui graças ao link do blog of notes. Que tal, ao invés de pedir um link nos comentários, me pedir um link pessoalmente? Sim, é verdade! Pelo menos os que moram no Rio podem conferir meu ofício noturno e me dar um alô. Basta chegar na sexta-feira ali no Choppers, um barzinho bem bacana em Botafogo, perto da Rua da Passagem e do Rio Sul. Eu faço a trilha sonora pro chopp e hambúrguer locais com meu violãozinho besta e minha voz fanhosa, desfilando clássicos do Róquenrôu que vocês nunca viram ninguém tocando antes. Rola Kinks, Animals, Smiths e Echo & the Bunnymen, por exemplo... Em suma, um monte de músicas que você conhece mas não sabe o nome, mas Costello vai lá e resgata para abrilhantar a sua noite.

Eu só tenho essa foto de um cartaz que arranquei da parede numa das vezes em que toquei lá, então aí vai:



É isso, quem for ganha um link aqui por uma semana e uma música (se eu souber tocar).

...De volta à programação normal, que já assisti 3 filmes no festival, resenhados no post que aparecerá ali em cima brevemente. Fiquem olhando este blog fixamente pra ver quando será.






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