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Rock, Cinema, Música, Cultura Pop em opiniões inconvenientes formadas por anos e mais anos de intrigante falta de coisa melhor pra fazer e feroz resistência para sair da adolescência.

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Sons captados Terça-feira, Fevereiro 28, 2006


Visto o último candidato a melhor filme, Capote, posso dar o veredito: Brokeback é o pior filme de todos os indicados, e vai ganhar, porque Hollywood vai preferir a "polêmica" do filme romântico gay do que as feridas expostas pelos outros. Capote pinta um retrato muito assustador do queridinho Truman, ao escrever seu A Sangue Frio, seus expedientes de investigação, suas motivações, e as mudanças traumáticas que esta experiência provocou nele. Só que é um filme de um ritmo meio estranho, não muito empolgante. Acho que o pessoal vai dar um Oscar pro Phillip Seymour Hoffman, um ator de uma afetação irritante que tornou-o perfeito para o papel de um escritor igualmente afetado, mas se as premiações para este filme forem além disso seria injusto.

De qualquer forma assistindo Capote constatei outras injustiças: A indicação de Catherine Keener a melhor atriz coadjuvante, por um papel onde ela praticamente não faz ou diz nada, pareceu um exagero. Estão querendo reconhecer os dotes dela de atriz sem necessariamente haver um filme que justifique. A Anne Hathaway faz seu pequeno papel em Brokeback brilhar muito mais. Mas isso não é o problema mais grave. O duro mesmo é a não-indicação de Clifton Collins Jr., que fez o assassino Perry Smith, a melhor ator coadjuvante. Vejam bem, este filme foi feito para os maneirismos do Seymour Hoffman. Ele é o foco de todas as cenas. Aperta os olhos, fala fino, usa figurinos extravagantes. Não há muito espaço para mais ninguém. Agora imaginem um ator coadjuvante roubar pelo menos uma das pequenas cenas contracenando com o gigante. O Clifton faz isso. Olhos trêmulos, fala manso, baixo, hesitante, ao mesmo tempo têm alguns tiques que parecem delinear uma personalidade oculta tremendamente perigosa. Não há como não se impressionar com a performance dele. Com certeza mais forte que o Donnie Darko em Brokeback, pra fazer uma afirmação polêmica. Se não quiserem polêmica, sem problemas, lembro que ele podia ter sido indicado tranquilamente no lugar do William Hurt, que em Marcas da Violência aparece por uns 10 minutos, ainda por cima com uma canastrice ridícula, enchendo o personagem de traços "psicopatas" de uma forma totalmente exagerada que dá uma bela estragada no desfecho do filme.

E assisti Boa Noite e Boa sorte novamente, só pra ter certeza: É o melhor filme do ano. É o melhor roteiro. É a melhor direção. É a melhor fotografia, disparado o filme mais bonito do ano. É a melhor atuação, fiquei bem mais fascinado vendo o Edward Murrow feito pelo David Strathaim do que o Capote do Hoffman. Talvez o motivo seja o personagem em si, que requer muito mais força e presença. E é o filme mais relevante. Mete o pau sem dó nem piedade na barafunda política do Jorge Moita e seu sonho do estado de ultra-direita, mostrando que a história recente do destrambelhado senador McCarthy não deve ser esquecida sob pena de ser repetida. Ainda discute o papel do jornalismo, o poder da TV, a ética profissional. É um filme fortíssimo, e independente dos prêmios (que duvido que ganhe), e uma certa falta de hype, obrigatório pros amantes do cinema.

Voltando ao Brokeback, mais uma notícia besta: As camisas que no filme compartilham o mesmo cabide, numa imagem do amor dos pombinhos peões, foram leiloadas no eBay, com fundos voltados a uma instituição de caridade da California. Quem arrematou foi um auto-proclamado ativista gay, que ofereceu nada menos que $101.100,51 - sim, mais de cem mil dólares - pelas peças. Ele declarou que não vai vesti-las, mas sim deixá-las no cabide, uma sobre a outra, como no filme. A máquina de publicidade de Brokeback segue avassaladora.





Sons captados Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006


E o Oscar é sempre assunto predileto da casa. Agora que vi o falado Match Point do Woody Allen, incluo-me no time dos que gostaram muito. Nada que mude a vida de ninguém, mas é diversão garantida. Achei engraçado o Jonathan Rhys Meyers fazendo papel de homem, pra mim ele sempre será o pavão misterioso do Velvet Goldmine. Na verdade seu jeito de apertar os olhinhos faz com que eu espere que a qualquer momento ele grite um "AAiiii cansei" e saia cantando em cima de mesa metido num figurino de paetês.

A veneranda academia cometeu mais uma brutal injustiça ao não indicar a Scarlett Johansson a melhor atriz. Por favor, fazer uma personagem chata e neurótica parecer tão glamourosa, humana e interessante é para poucas, pouquíssimas. Pensem só na quantidade de atrizes de nome que iriam, literalmente, fazer a Glenn no papel de amante desesperada. De qualquer forma a Scarlett ainda é uma pirralha de 21 aninhos completados em novembro. Tem muitos filmes, prêmios - e o título de grande dama do cinema, se o mundo for justo - pela frente. Se o mundo não for justo, ela aparece aqui em casa e me pede em casamento, que não consigo pensar em nada mais injusto.

E o Woody fazendo um finalzinho surpresa que caberia em qualquer filme do Shyamalan, hein?

Infelizmente perdi a fonte, mas um gaiato comentou muito acertadamente que Brokeback no final das contas não é um filme tão gay assim. No máximo os atores homens se beijam, tirando uma cena mais cômica que sexy de um deles tomando banho de botas. Já as mulheres tiram suas camisas alegremente, pode-se conferir os... ahn... "atribustos" da ex-Dawson Creek Michelle Williams e da ex-Diários da Princesa (embora talvez isso seja crime) Anne Hathaway. Então se a sua namorada ou esposa quiser ver o filme, pode ser um atrativo para os machos latino-americanos subdesenvolvidos como eu se fazerem de heteros sensíveis e irem junto. Agora não cheguem a dizer que gostaram do filme senão elas desconfiam.

E em termos de comentário cretino encontrei o mais sensacional no blog Encyclopedia Hanasiana, do escritor Jim Hanas. Ele comenta que há tempos o critério pra faturar um Oscar de ator ou atriz era interpretar alguém com alguma doença. Uma longa lista de vencedores confirma isto, incluindo a Renée Zwelkdfjkd, que é sempre indicada por conta de sua ausência de olhos, e o Roberto Benigni, que em A Vida é Bela fez o papel de um retardado parecido com o Roberto Benigni.

Só que de uns tempos pra cá a moda tem sido premiar quem interpreta figuras famosas. Por exemplo ano passado nada menos que 4 indicados a melhor ator interpretavam gente que realmente existiu, incluindo o vencedor Jamie Foxx com seu retrato do Ray Charles. A Cate Blanchett também faturou melhor atriz coadjuvante fazendo a Katharine Hepburn. Ao mesmo tempo, vem crescendo muito o prestígio de papéis de gays. Estas duas tendências neste ano fizeram com que quase metade dos indicados ao Oscar de ator ou atriz fossem por papéis de pessoas famosas ou de gays. Logo, segundo o diagrama que o Hanas fez, tão genial que resolvi reproduzir aqui, não há como o Phillip Seymour Hoffman não levar o Oscar. É científico.







Sons captados Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006




O aniversário é hoje, a festança é sexta, mais uma vez celebrando as mudanças e pessoas que este blog trouxe pra minha vida!






Sons captados Terça-feira, Fevereiro 07, 2006


Aí chegaram as indicações do Oscar e o pessoal realmente entendido no assunto já fez vários comentários inteligentes e pertinentes. Os indicados a melhor filme são os mesmo de melhor diretor. Hmmm. Quase coincidiu com melhor roteiro. Hmmm. Brokeback é o grande favorito. Hmmm. Crash vem fazendo uma fantástica recuperação. Hmmm. Spielberg na cabeça de novo. Hmmmm.

Eu não tenho a menor idéia do que isso aí significa, não costumo entender muito bem comentários inteligentes e bem informados. De qualquer modo tenho uns palpites bestas e desinformados.

Assisti 4 dos candidatos. Munique é um filme que pode ser bom ou mais ou menos, depende um pouco do que se quer analisar. O Spielberg sabe contar uma história como poucos, fato. Algumas das cenas de suspense são realmente enervantes. A recriação do sequestro da equipe olímipica israelense é impressionante e ousado ao mostrar o desenrolar mais do ponto de vista dos sequestradores do que das vítimas. O filme tem sempre este clima, ao mesmo tempo que lembra como foi absurdo e bárbaro o ato palestino, também tenta entender os motivos que levaram, e que ainda levam, pessoas a achar justificáveis atos terroristas.

Esta análise é feita seguindo uma das equipes de israelenses que procuraram e mataram alvos palestinos pelo mundo. Em suma, igualmente terroristas. O tema então não é nada fácil nem bonito. O judeu Spielberg bota o dedo na ferida lavando a roupa suja da história em público. Os heróis são simpáticos, torcemos por eles, mas os próprios diálogos entre eles nos advertem que não têm orgulho do que fazem, na verdade duvidam muito da eficácia daquilo, e sofrem com as consequências de seus atos.

Só que a coisa não vai muito fundo. A crítica fica só no nível "Terrorismo é mau. Paz entre os povos é bom." E o filme passa 3 horas repetindo esta moral rala incessantemente, ato após ato. São 3 horas razoavelmente divertidas, vejam bem. Mas ainda assim parece muita coisa pra pouco efeito. Tipo o King Kong, que pelo menos não tava nem aí pra moral nenhuma, só queria destruir e matar coisas de computação gráfica.

Brokeback é o tal filme de caubóis gays. É assim, as atuações são bacanas. As cenas são bonitas, principalmente no início, com os caras nas montanhas pastoreando trilhões de ovelhas. É tudo muito caprichado. E é chato pra cacete. Credo. Acho que eu não nasci pra ver romances épicos. Esse tipo de filme fatura Oscar independente de suas qualidades, então por isso é considerado o grande favorito.

Com Crash a coisa já esquenta. Gostei, mas não fazia idéia que era filme pra concorrer a Oscar. A direção é ótima, e o roteiro muito bem engendrado, várias histórias se cruzando dos jeitos mais inesperados. Um bom filme com jeitão de cult, apontando o problema do preconceito no caldo fervente racial de Los Angeles. Matt Dilon faz um trabalho bacana, mas gostei mais dos dois bandidos que discutem em termos intelectuais o porquê de serem discriminados.

O que mais diverte é que quando Crash pintou por aqui a crítica brazuca foi meio assim assim, elogios ali e críticas aqui, ninguém incensando muito, como normalmente os críticos mambembes fazem com o cinema independente americano (disparado o melhor do mundo, motivos óbvios, e muitas vezes alvo de um preconceito covarde). Agora com as indicações o pessoal vem jogar confete, e bater no peito num clima de "Eu já sabia", enquanto obviamente diz que Brokeback é muito mais filme, pra poder continuar com a pose de entendido.

Boa noite e Boa sorte é um filme do George Clooney. O Clooney merece uma análise mais detida. Ele é um astro de proporções enormes. Um super galã cheio de carisma que soube fazer a difícil transição da TV para o cinema de uma forma brilhante. Conseguiu fulminar as pretensões nefastas a diminui-lo a herói de ação ao tomar com força as rédeas de sua carreira, pegando papéis em filmes de diretores inteligentes, e mais tarde investindo na produção de filmes bacanas, ajudando caras em quem ele acreditava. Ele é camarada do Soderbergh, Irmãos Coen e Robert Rodriguez. Ele pediu e conseguiu que Drew Barrymore e Julia Roberts trabalhassem no seu primeiro filme, Confissões de uma mente perigosa, por um cachê tabelado. Aliás ele só assumiu a direção deste filme porque o diretor original teve que abandonar o projeto e a coisa perigava não sair mais, o que ele considerava uma pena. Na época ele se declarou pouco à vontade com esse tipo de trabalho e que não gostaria de estar atrás das câmeras novamente.

Poucos anos depois ele reconsiderou e fez mais um filme sobre o mundo da TV. Desta vez, indo na ferida cada vez mais exposta do governo Bush. A censura, o medo, o regime de ultra-direita, o papel da televisão frente a isto. Admirável tema para ser abordado por um ex-galã de novela. O filme é difícil, preto e branco, muito falado, pouca ação. Quem gosta de filme francês vai tirar de letra. Aos que não são chegados, difícil convencer das qualidades, pelo menos digo que cada palavra vale ouro, é tudo fortíssimo, e o ingresso vale pelas cenas originais de época, o senador-destrambelhado McCarthy e seus discursos de caça às bruxas comunistas que fez uma nação de refém. Aliás consta no IMDB que os espectadores das sessões de teste acharam muito exagerada "a interpretação do ator que fez" o McCarthy, sem perceber que eram imagens do próprio.

Mais uma vez o "contra-terrorismo" na berlinda, com uma abordagem inversa a do Spielberg. Palavras e imagens originais ao invés de ficção. Debate de idéias ao invés de dramas pessoais. E podem me chamar de herege (agradeço), mas as imagens são muito mais bonitas que as de Brokeback. Que fotografia fenomenal para um filme todo passado em espaços fechados. O Clooney não deve ganhar prêmios, mas é o cara. Atenção com os projetos dele.

Uma outra coisa a notar: Já estava acontecendo uma certa tendência nos anos passados de indicações pintarem para filmes indies, sem orçamento ou lançamento de grandes estúdios, por exemplo os queridinhos Encontros e Desencontros e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Neste ano isto se consolidou de vez. Dos indicados apenas Munique é uma produção de grande porte. A validade do entrenimento cego e caro sobre os filmes feitos com mais amor à arte está sendo questionada pela comunidade que produz os filmes. 2006 será um bom ano para o pessoal apresentar projetos menos superficiais aos grandes estúdios, e em 2007 nós veremos se isto surtiu efeito.

Pra terminar quero deixar aqui meu protesto com a ausência total de Beijos e Tiros. NENHUMA indicação? O roteiro é sensacional. A montagem é deveras esperta. O Robert Downey Jr dá (o costumeiro) show, com uma dimensão real interessante por ser um personagem totalmente loser, um pé-de-chinelo, sendo engolido e desprezado por Los Angeles. Não é o filme do ano, mas é, mais ou menos como Crash, um filme bacana, interessante, feito com estilo, divertido. Estranho que um receba trocentas indicações e o outro vá para o limbo dos esquecidos. Preconceito com comédias?








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