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Rock, Cinema, Música, Cultura Pop em opiniões inconvenientes formadas por anos e mais anos de intrigante falta de coisa melhor pra fazer e feroz resistência para sair da adolescência.

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Sons captados Terça-feira, Dezembro 26, 2006


Beautiful Losers

2 filmes independentes que passaram tanto no Festival do Rio quanto na Mostra São Paulo merecem comentário conjunto.



Little Miss Sunshine já rodou pelo circuito. A Fox comprou os direitos de distribuição deste filme após a aclamação no festival de Sundance. O escopo é uma família interiorana que se enfia numa combi para tentar levar a filhinha num concurso de beleza na California. Os membros da trupe são o avô junkie e tarado, o tio recém saído de uma tentativa de suicídio por ter o aluno por quem se apaixonou e reconhecimento acadêmico roubados por um colega da universidade, o adolescente rebelado adorador de Nietzche que fez voto de silêncio até entrar para a academia aérea, o pai cujo esforço para virar palestrante e escritor de auto-ajuda é um fracasso, e a mãe, como sempre, o esteio da família, lutando para mantê-la unida, sem muito sucesso.

A candidata a pequena miss, Abigail Breslin, com uns óculos enormes, é muito fofa. Ela já tinha aparecido para o mundo com ninguém menos que o nosso amigo Shyamalan, era a menina com frescuras pra tomar água de "Sinais". (Aliás quem faz o papel de sua mãe, Toni Collette, também trabalhou com Shyamalan, era a mãe do assustado Cole de Sexto Sentido). Seria bonito dizer que a menininha era lindinha e forte candidata ao prêmio dando uma lição de como vencer na vida a toda a família, mas a viagem onde absolutamente tudo dá errado se encaminha para o desastre maior quando se compreende que a miss mirim típica é uma pirralha com muito laquê, biquinis de lantejoulas, postura de top model e cara de quem já fez 5 plásticas aos 9 anos. Como curiosidade, vestiram a magrinha (um tipo físico "competitivo" demais) Abigail com uma barriga falsa debaixo do seu maiô breguinha para tornar as diferenças mais visíveis.

Já disse demais sobre a história que rende situações muito engraçadas, mas toca no filme o choque das duas américas. A que deveria ser e a que é. Ou a que é e a que corre atrás sem saber porque não consegue chegar lá. O sonho americano de beleza e sucesso pareceu não tocar a família Hoover (sobrenome ilustre, aliás, outra ironia), e as reação no início do filme é de perplexidade. Eles estão tentando se encaixar. Alguma hora, a maré vai virar, e eles poderão ter as realizações que parecem estar preparadas para o americano honesto que ama sua família e trabalha para criá-la com dignidade. A jornada rumo ao concurso de beleza é uma metáfora rebuscada e ao mesmo tempo crua - um bando de caipiras idiotas querendo seu lugar no jet set ou uma família acreditando com total fé e ingenuidade na fatia que os Estados Unidos prometem há tempos para seus filhos e que talvez nunca venha?

Um dos personagens, talvez no único momento onde se explicita o raciocínio por trás deste roteiro, observa que a vida é um concurso de beleza atrás do outro, e - como diria a madre superiora - que se foda isso.

Como o Sam Mendes nos mostrou há uns anos em Beleza Americana, talvez o mais bonito aconteça quando você manda isso pro inferno e saia deste ciclo. O que acontecer a partir daí, ainda que seja um desastre, se parece mais com felicidade e real beleza do que qualquer sonho que se venda pela TV. Outros cineastas americanos estão revisitando o tema, e isso pode ser um interessante termômetro de como os irmãos ao norte vêem suas identidades no momento.

O outro filme indie, Clerks 2 (não sei se passa no Brasil ou não), também é sobre isso, e coroa o Kevin Smith como o grande campeão da causa nerd, retirando o cetro das mãos de Peter Jackson e irmãos Wachowski. Ao invés de criar mitologias, Kevin Smith nos apresenta o loser americanus (com trocadilho, por favor, que ele faria esse tipo de piada) em toda sua realidade patética, com direito a zoom nos detalhes sórdidos.



Creio que existem duas formas de ver Clerks 2. Numa, esta é uma comédia adolescente como American Pie e similares, porém tremendamente mais escatológica. Um dos que viram assim foi o famoso crítico americano Joel Siegel que saiu da sessão prévia gritando "Esta é a primeira vez em 30 (fucking) anos que eu saio no meio de um filme", detalhando que decidiu fazer isso numa menção a bestialismo (ou conforme um personagem corrige, "inter-species erotica"). Aliás não sei como o cara não se tocou da ridícula confissão de vagabundagem, afinal ele não entra no cinema por lazer. Espero, pro bem do jornalismo, que ele tenha sido demitido e hoje escreva horóscopos, até porque obviamente acho que esta visão é de uma superficialidade irritante.

Outra visão é de um filme com uma agudíssima reflexão sobre a mesma américa dos Hoover ali acima. Dante e Randal eram balconistas no original Clerks. Jay e Silent Bob eram traficantes que ficavam enchendo o saco na calçada. 12 anos depois, eles engordaram, perderam cabelo, mas continuam rigorosamente onde estavam. Ou talvez tenham piorado, pois ao invés de uma locadora o cenário agora é um fast-food genérico, numa menção à América capitalista vitoriosa que talvez esteja lesando a população para continuar exibindo seus baluartes. Dante é o cara certinho, sério e meio patético. Randal é o sacana clássico que não encara nada a sério. Aos 30 anos de idade, ambos têm uma amargura que escorre da tela.

Dante se envergonha de sua vida e só fala em se casar com a noiva que descolou, uma loira peituda que jamais tinha dado bola quando era cheerleader em seu colégio, e viajar para abrir um negócio na Flórida, por presente do futuro sogro. Ele vê o destino justo e aguardado finalmente chamando o número da senha dele, e não vai perder a chance de saltar para o outro país do qual ele só vislumbrava do outro lado do balcão. Já Randal parece feliz onde está, mas suas piadas estão mais ácidas, seu sarcasmo não encontra mais limites, ele parece se divertir esmagando e flagelando qualquer ser humano no seu raio de ação, e não há como não imaginar contra o que exatamente ele parece estar tentando se vingar.

As pistas vêm ao longo dos 3 clímax do filme:

1) O show de "Kelly e o garanhão sexy" - o que já era grotesco piora muito com um certo engano que é cometido por Randal quando contrata o show. Escatologia da pior espécie, ou entre espécies. Só que não há como não rir. E rir muito. E se sentir culpado por estar rindo daquilo e rir mais ainda. Vocês sabem do que estou falando. A reação dos próprios personagens é de choque. Eles sabem que não fazem parte daquilo. Talvez a pornografia absolutamente depravada faça o papel do concurso de beleza em Little Miss Sunshine: A outra américa talvez esteja desperdiçando seu dinheiro para satisfazer desejos doentios, não importa se publicáveis ou não, e o máximo que qualquer pessoa poderia fazer quanto a isso é olhar e partir na direção oposta.

2) Dante e sua chefe dançando no telhado ao som de ABC do Jackson 5 - o som contamina todos os funcionários e clientela, gerando uma cena de dança coreografada que poderia fazer parte de um musical. Dá vontade de dançar ou no mínimo bater palmas no cinema. Pra que padrões de comportamento etário, pares perfeitos ou felicidade? A música certa e um nível saudável de desprendimento num dado momento podem abrir nossos olhos sobre todo o resto muito além do que pensamos.

3) Randal leva Dante para uma corrida de karts ao por do sol em câmera lenta - Poesia visual que expande o sentimento da cena anterior. Um divertimento singelo salva o dia de Randal e faz com que ele se aceite após sentir-se brutalmente humilhado por um ex-colega milionário. A América da TV ri na cara do perdedor, mas sua vingança é que pode se divertir com coisas simples. Enquanto uns se fecham em seus SUVs, outros ainda sentem o vento na cara e riem como crianças.

Randal faz piadas mas não acha graça em tudo. Na verdade ele acha graça em muito pouca coisa à sua volta. Ele sabe que não há um lugar pra ele, simplesmente porque está feliz onde está e isto é um grave defeito na sociedade de ultra-consumo. Não existem mais lugares confortáveis, as pessoas esqueceram do que as completa, simplesmente porque a busca ficou mais valorizada que o tesouro. Isto é até coerente quando sabe-se no íntimo que o tesouro não tem valor. Randal enxerga isto, não está na mesma busca, e sua tristeza com o amigo que vai embora é profundamente comovente. Ele não está só com medo de ficar sozinho. Ele teme que as pessoas percam suas almas em troca do que escutaram como propaganda. Um cara trintão, ferrado na vida e amoral sabe que não é grande coisa, mas também sabe que poderia ser pior ainda se ele tentasse viver dentro da bolha dos sonhos de subúrbios republicanos. Ele é o que é, e julgar isso já é cometer a injustiça.

Kevin Smith é um escritor de diálogos tão soberbo que mal percebemos esta carga crítica no meio das piadas nerds com Guerra nas Estrelas, Senhor dos Anéis e práticas sexuais bizarras. Mas ninguém é tão inconseqüente, e principalmente, não um cara tão inteligente quanto ele. A história se passa em New Jersey, por si só um lugar "quase". Fica de frente para Manhattan, mas abriga pessoas que carregam o estigma de não ter o dinheiro para morar na ilha. A escolha não é casual, o Kevin é de lá. Ele vislumbra a outra América, mas decidiu não fazer a travessia, e escrever sobre isto.

O desastre não é não "chegarmos lá". O desastre é perdermos nossa integridade por uma ambição plantada por outros. E descobrirmos tarde demais que felicidade é viver o que se tem na mão.

Assistir dois filmes num curto espaço de tempo que versam sobre este mesmo tema foi uma experiência um bocado forte. Duas comédias algo grosseiras, algo parecidas com outras. Porém, feitas por quem não acha as coisas assim tão engraçadas. Não se tratam de sátiras, tratam-se de confissões e alertas muito sinceros, feitos com muito amor e orgulho de quem se sabe outsider. A américa pouco propagada e seus nerds alienados está começando a ter uma voz alta, e o que ela diz é muito interessante, além das piadas serem ótimas. Não percam a revolução social que o cinema americano está sinalizando, numa sala perto de você, ou no bittorrent de sua escolha.





Sons captados Domingo, Dezembro 24, 2006


Ok, isso aqui não é exatamente um post. Mas como eu já falei aqui do cânone de Pachelbel, achei que cabia um apêndice. Como vocês, Rob Paravonian e a tortura de tocar isso no cello.

E só pra não ficar muito decepcionante, mais um projeto de Frank Miller para o cinema: Os 300 de Esparta. O trailer lindíssimo - não por acaso remetendo a Sin City - pode ser visto clicando aqui. Quem achar o Rodrigo Santoro ganha um prêmio.








Sons captados Sábado, Dezembro 02, 2006


Vocês não sabem que ótimo ia ser meu post traçando um paralelo entre Little Miss Sunshine e Cleks II. Talvez até saibam um dia. Ando viajando.

Mas pelo menos o Youtube traz diversão ilimitada para toda a família e eu pude relembrar dois desenhos do Walter Lantz essenciais para a formação de minha personalidade:

* A lenda de Rockabye Baby Rock

* A Indústria Vital

...E obviamente, todos os do Charlie Brown, o desenho adulto, e não a banda infantil.







Chegou até aqui?? Então leia o que escrevi em:




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